JEREMY BENTHAM

JEREMY BENTHAM
"NATURE HAS PLACED MANKIND UNDER THE GOVERNACE OF TWO SOVEREIGN MASTERS, PAIN AND PLEASURE. IT IS FOR THEM ALONE TO POINT OUT WHAT WE OUGHT TO DO, AS WELL AS TO DETERMINE WHAT WE SHOULD DO." (J. Bentham)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

TEMA 2. DAVID HUME E O UTILITARISMO

Caros Alunos,
Na Seção V “Por que a Utilidade Agrada” de seu “An Enquiry Concerning the Principles of Morals”, Hume afirma: “Parece ser uma questão de fato que o aspecto da utilidade, em todos os assuntos, é uma fonte de louvor e aprovação; que essa utilidade é constantemente citada em todas as decisões morais relativas ao mérito e demérito de ações; que ela é a única origem da alta consideração dedicada à justiça, fidelidade, honra, lealdade e castidade; que ela é inseparável de todas as demais virtudes sociais da humanidade, generosidade, caridade, afabilidade, leniência, misericórdia e moderação. E, numa palavra, que ela é o fundamento da parte principal da moral, que se refere à humanidade e aos nossos semelhantes.
Parece igualmente que, em nossa aprovação geral de caracteres e costume, a natureza útil das virtudes sociais não nos motiva em vista de quaisquer considerações de interesse próprio, mas tem uma influência muito mais ampla e universal. Parece que uma tendência ao bem comum e à promoção da paz, harmonia e ordem na sociedade, ao afetar os princípios benevolentes de nossa constituição, sempre nos atrai para o lado das virtudes sociais. E parece, como uma confirmação adicional, que estes princípios de humanidade e simpatia enraízam-se tão profundamente em todos os nossos sentimentos e tem sobre eles uma influência tão poderosa que os levam a provocar os mais enérgicos aplausos e censura. A presente teoria é o simples resultado de todas estas inferências, cada uma das quais parece estar fundamentada na constante experiência e observação.
Se tivermos dúvidas sobre se há em nossa natureza princípios humanitários ou de consideração pelos outros, basta a observação, em inumeráveis casos, da elevada aprovação recebida por tudo que tem tendência a promover os interesses da sociedade para que cheguemos a reconhecer a força do princípio benevolente, dado que é  impossível que alguma coisa agrade como meio para um fim quando esse fim não desperta qualquer interesse. Por ouro lado, se tivermos dúvidas sobre se há, implantado em nossa natureza, qualquer princípio geral de recriminação e aprovação morais, basta a observação, em inumeráveis casos, da influência do princípio humanitário para que sejamos levados a concluir que não é possível que algo que promove os interesses da sociedade deixe de transmitir prazer e que algo que é pernicioso a esses interesses deixe de produzir desconforto. Mas quando essas diferentes reflexões e observações convergem para estabelecer a mesma conclusão, não devem elas conferir-lhe uma evidência indisputável?”
Bentham em seu “Article on Utilitarianism – Short Version” afirma reconhece que Hume foi o primeiro filósofo moderno a utilizar a idéia da existência de um princípio de utilidade. Entretanto, em Hume, a idéia de utilidade tem o sentido algumas vezes de “condutor à felicidade” e, em outras vezes, tem o sentido de “condutor a um fim proposto”. Somente de maneira superficial,  Hume estabelece a conexão entre felicidade e prazer e dor. Em Hume não há referência ao fato que a felicidade consiste na obtenção do prazer e no alívio do sofrimento.

Após ler, especialmente a "Section V -  “Why Utility Pleases” de seu “An Enquiry Concerning the Principles of Morals, disponível em:

http://www.anselm.edu/homepage/dbanach/Hume-Enquiry%20Concerning%20Morals.htm

elabore seus comentários e envie para publicação. Vc. tem até as 24:00hs. do dia 18 de fevereiro para realizar essa atividade.

Examine o material disponível em:

http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/01/02/filosofia-politica-contemporanea-o-utilitarismo/

41 comentários:

  1. A seção V “Por que a Utilidade Agrada” não me convence, pois discordo com um de seus preceitos, a saber, que “devemos renunciar à teoria de que todo sentimento moral é explicado pelo princípio do amor de si mesmo, e admitir uma afeição de natureza mais pública, concedendo que os interesses da sociedade, mesmo considerados apenas em si mesmos, não nos são totalmente indiferentes. (...) Assim, se a utilidade é uma fonte do sentimento moral, e se nessa utilidade não é sempre considerada em referência ao próprio sujeito, segue-se que tudo o que contribui para a felicidade da sociedade recomenda-se diretamente à nossa aprovação e receptividade” (HUME, David. Uma investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Editora Unesp, pp. 285 e 286). Pois acredito que o homem só pratica ações morais porque se vê forçado a isso na medida em que se não o fizer será punido. Neste sentido, concordo mais com Hobbes, pois vejo que “para que as palavras ‘justo’ e ‘injusto’ possam ter lugar, é necessária alguma espécie de poder coercitivo, capaz de obrigar igualmente os homens ao cumprimento de seus pactos, mediante o terror de algum castigo que seja superior ao beneficio que esperam tirar do rompimento do pacto (...)” (HOBBES, Thomas. Leviatã, Primeira parte, cap. XV), pois e tendência natural do homem é agir como um ser egoísta.

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  2. "Porque a utilidade agrada"
    Não concordo que a utilidade seja algo natural nem que tenha sido inventada para tornar os seres humanos mais tratáveis.

    Para mim, o ser humano nasce egoísta, por instinto (Para sobreviver).

    No entanto, devido à sua racionalidade, o ser humano é moldável.
    Hoje a idéia de utilidade é aprendida. Contudo, não foi algo que aconteceu de repente.

    Penso que à partir do momento em que os homens começaram a viver em sociedade, a idéia de utilidade já estava surgindo(Não foi algo
    inventado por ninguém), pois os homens perceberam, através da experiência, que se vivessem em conjunto, teriam ganhos maiores em
    vários aspectos relevantes do que se vivessem sozinhos. (Ex: poderiam vigiar alternadamente os locais onde viviam, poderiam caçar em
    grupos, etc).

    Com o passar do tempo, a experiência mostrou ao homem que a vida em sociedade precisava de regras para delimitar o espaço de cada um e em
    quais circunstâncias seria mais vantajoso ao grupo, tomar certas decisões ou executar determinada ação. Aos poucos, de acordo com a
    necessidade, as regras eram então criadas, extintas ou modificadas, sempre com o intuito de maximizar o prazer ao grupo.

    Portanto, o ser humano aprendeu através da experiência ser utilitarista.

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  3. "Usefulness is agreeable, and engages our approbation. This is a matter of fact, confirmed by daily observation. But, useful? For what? For somebody's interest, surely. Whose interest then? Not our own only; For our approbation frequently extends farther. It must, therefore, be the interest of those, who are served by the character or action approved of; and these we may conclude, however remote, are not totally indifferent to us. By opening up this principle, we shall discover one great source of moral distinctions."
    Hume, David. An Enquiry Concerning the Principles of Morals

    “...a revolução do gene egoísta, longe de ser uma ordem sombria e hobbesiana para ignorarmos o bem-estar alheio, é exatamente o oposto (...). Genes egoístas às vezes usam indivíduos desprendidos para alcançar os seus fins. E o que importa para sociedade é o fato de as pessoas serem boas umas com as outras e não os seus motivos"
    Dawkins, Richard "O Gene Egoísta" apud. Ridley, Matt "As Origens da Virtude: um estudo biológico da solidariedade" pg 79.


    Meus sentimentos de empatia, de dor, de prazer, de medo, de vergonha, de repúdio, de gratidão, de ciúme, de indignação, de culpa fazem parte do mundo, eles existem. Não sei completamente por que os tenho, mas os tenho. Parte deles posso entender como uma estratégia de defesa, de sobrevivência ou de perpetuação. É possível que parte deles tenham sidos construídos, ferramentas para lidarmos com o precário mundo, com nós mesmos. Posso entender em partes então meus desejos por sexo, por comida, por facilidade, por satisfação, por prazeres. Então, se os tenho, posso usá-los.

    Eu quero o que me satisfaz. Não poderia deixar de aproveitar essas emoções para direcionar minha conduta e de considera-lá frente á outros. Aprovo o que me agrada, o que traz melhores consequências para mim e ao meio que estou inserido. Desaprovo o que me repudia. Luto contra a dor, contra o preconceito, contra a crueldade, contra a doença, contra a fome, contra a indignidade, contra o sofrimento, contra as perdas, contra os males, contra as injustiças.

    Me parece tudo relativamente simples. Será que ninguém nunca pensou nisso? Será que ninguém nunca viu utilidade nisso? Se pensaram por que nunca puseram em prática?

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  4. Eu acho que as pessoas podem ser egoistas ou altruistas. As egoistas são assim por causa de suas estruturas fisiologicas (neuronios espelhos http://pt.wikipedia.org/wiki/Neur%C3%B3nio_espelho) somadas à cultura na qual elas estão inseridas.O altruísmo têm causas equivalentes.
    Quando uma pessoa nasce, acredito que ela seja uma "tábula rasa", como foi sugerido por John Locke.Neste sentido, as idéias, que são a matéria-prima da razão e do conhecimento, só podem surgir da experiência. Porém, as pessoas, com suas disposições naturais, podem se tornar egoístas ou altruístas dependendo das experiências que tiveram em suas culturas.
    Concordo com o trecho: "A razão, sendo fria e desapegada, não é motivo de ação, e dirige apenas o impulso recebido do apetite ou da inclinação, mostrando-nos os meios de atingir a felicidade ou evitar a miséria. O gosto, na medida em que dá prazer ou dor, e portanto constitui a felicidade ou a miséria, torna-se um motivo para ação,e é a primeira mola ou impulso para o desejo e a volição."(Hume 4)
    Aparentemente, Hume diz que não só a razão não age sozinha nas ações dos individuos, mas também que o gosto é que se torna o motivador das ações humanas.Enfim, o homem busca satisfazer os seus gostos,
    Eu vejo as pessoas altruistas como indivíduos que sentem prazer em realizarem o bem ao próximo.Entretanto, nesse sentido, ele também é egoista, uma vez que busca o prazer próprio, porém, este egoismo não é prejudicial às outras pessoas. Por exemplo: Caso você ajude alguém nescessitado, então esta pessoa experimentará um sentimento agradável por causa de seu ato. Além disso, a pessoa poderá ver a utilidade de seu ato, pois este melhorou as condições dela.Então, você, como um espectador, vendo estes sentimentos agradáveis que a pessoa está experimentando,terá, por simpatia, sentimentos agradáveis também. Estes sentimentos de prazer sentido por simpatia acabam sendo a própria caracteristica virtuosa do ato.É também possível experimentar ,por simpatia, a dor de outro também e isto é ,igualmente, uma forma de simpatia.Caso faltem esses neuronios espelhos no indivíduo, ele provavelmente terá menos simpatia.
    Gosto do conceito de utilidade, porque os princípios de utilidade se tornam interressantes na medida em que satisfazem os interesses individuais sem prejudicar muito os interresses de outras pessoas, além de gerar uma explicação para a etica que se afasta um pouco da metafisica.

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  5. Para Hume ao contrário do que dizem os céticos a 'afeição' e a 'antipatia moral' não são fruto da educação que nos é imposta pela sociedade e sim são fruto de nossa natureza. A nossa natureza, por sua vez uniria os sentimentos morais à razão e guiaria nossas ações. Assim o natural (como o próprio termo sugere) 'antecede todos os preceitos' uma prova disso é que a preferência pelo “honroso, encantador, nobre” e aversão ao que é “vergonhoso, odioso e desprezível” mesmo por aqueles com pouca instrução. A utilidade das boas ações, nos é agradável, pois envolve nossa aprovação.

    Haveria o equilíbrio entre razão e sentimento. Quando essas duas instâncias se harmonizam automaticamente repelem o que é imoral. Agimos de fora moralmente correta como se nosso raciocínio estivesse subjugado ao nosso sentimento moral. Hume diz que “as distinções morais” não podem ser derivadas apenas da razão, e isto porque a razão “nunca exerce influência alguma sobre a conduta [...]”. Aqui não é excluída a presença da razão, mas acredita-seque os juízos morais produzidos por ela não são determinantes da vontade.

    O Utilitarismo é o desdobramento desse anseio humeano. Para o filósofo aquilo que nos estimula à agir é a busca pela felicidade, realizada através do nosso desejo pelo prazer e repulsa pela dor. Contudo a razão aqui tem meramente o papel instrumental de distinção. As ações moralmente corretas são aquelas as quais teríamos propensão. Para os humeanos a razão sozinha não determina o que é certo e o que é errado, pois é apenas uma ferramenta.

    Desta forma podemos deduzir que Hume contribuiu para o debate ético a medida que o introduzir por nos por que o sentimento moral trabalha de forma distintiva. Um exemplo disso se dá através da convergência entre as opiniões acerca de ética e moral que os indivíduos que formam a sociedade possuem. Há aqui uma base mínima que são as nossas afeccções morais – tendência de buscar a felicidade e/ou prazer e evitar o oposto – desta forma o que nos é útil se torna desejável.

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  6. Pessoas, abaixo segue o link do livro inteiro do tema 3:

    http://www.4shared.com/document/I0ywqk7x/Bentham-Jeremy-Deontology-A-Ta.html

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  7. Caros alunos,

    Veja o que dizem os seguintes trechos do "Panopticon" de J. Bentham: "To say all in one word, it will be found applicable, I think, without exception, to all establishments whatsoever, in which, within a space not too large to be covered or commanded by buildings, a number of persons are meant to be kept under inspection. No matter how different, or even opposite the purpose: whether it be that of punishing the incorrigible, guarding the insane, reforming the vicious, confining the suspected, employing the idle, maintaining the helpless, curring the sick, instructing the willing in any branch of industry, or training the rising race in the path of education: in a word, whether it be applied to the purposes of perpetual prisons in the room of death, or prisons for confinement before trial, or penitentiary-houses, or houses of correction, or work-houses, or manufactories, or mad-houses, or hospitals, or schools.
    It is obvious that, in all these instances, the more constantly the persons to be inspected are under the eyes of the persons who should inspect them, the more perfectly will the purpose of the establishment have been attained. Ideal perfection, if that were the object, would require that each person should actually be in that predicament, during every instant of time. This being impossible, the next thing to be wished for is, that, at every instant, seeing reason to believe as much, and not being able to satisfy himself to the contrary, he should conceive himself to be so." (Letter I - Idea of the Inspection Principle)).

    Na última carta do "Panopticon" Bentham diz: "In short, as often as I indulge myself in the liberty of fancying that my own notions on this head may prove conformable to other people’s, I think of the old story of Columbus and his egg.
    I have now set this egg of ours on its end:—whether it will stand fast, and bear the shocks of discussion, remains to be decided by experience. I think you will not find it stale; but its freshness is a circumstance, that may not give it an equal relish to every palate.
    What would you say, if by the gradual adoption and diversified application of this single principle, you should see a new scene of things spread itself over the face of civilized society?—morals reformed, health preserved, industry invigorated, instruction diffused, public burthens lightened, economy seated as it were upon a rock, the gordian knot of the poor-laws not cut but untied—all by a simple idea in architecture?" (Letter XXI)

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  8. Hume afirma que a utilidade está presente na vida humana de forma que sempre encontramos racionalidade em algo que se apresenta útil. Até mesmo nos animais, plantas e objetos, a forma como estão estruturados e as vantagens que possuem são decorrentes da utilidade que apresentam. Isso se estende à moralidade, pois uma conduta danosa ou perigosa à sociedade é encarada com repulsa e desgosto. Assim, é pela utilidade que as ações boas são determinadas como morais.
    Mesmo que as origens do bem e mal morais sejam incertas, é pela experiência da utilidade das ações que Hume constrói o seu sistema ético. Ou seja, a utilidade é comprovada pela experiência e desta se construirá uma base da teoria ética de Hume. Vale ressaltar que o princípio da utilidade será encarado como algo inato ao homem.
    As ações que apresentam utilidade, isto é, dotadas de virtudes que trazem benefícios, são tidas como um modo de se fazer distinção moral entre o que é certo e errado. É por este princípio da utilidade que poderemos dizer o que é bom e o que é ruim na sociedade. Nesse sentido a crítica de Hume se desdobra para os metafísicos que diriam que o princípio do bem e mal são impostos por divindades. Hume defende que podemos utilizar a experiência para determinarmos as ações boas e ruins. A experiência não é apenas o que nos deparamos no agora, mas também pelas ações que entramos em contato através da história e se apresentam como louváveis pelo grau de utilidade que possuíam. Assim, como foi bem colocado pela aluna Mariana, o princípio que distingue as ações boas das más é natural ao homem e não cultural (ou dado pela educação) como diziam os céticos.

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  9. Por que a utilidade agrada? É com este título que Hume inicia a seção V de seu "An Enquiry Concerning the Principles of Morals". Nesta seção o autor apresenta fatos do cotidiano a partir dos quais pode-se inferir o forte caráter emotivo da moral. Hume propõe que o que há por trás dos méritos atribuídos as virtudes sociais é um sentimento natural de compaixão entre os seres humanos. Para o autor é um erro tentar separar interesses privados dos públicos, pois as pessoas por mais diferentes que sejam, acabam por concordar que há alguns pontos de "consenso" nos quais se define algo como bom ou ruim a partir da benevolência humana para com o outro e para a comunidade onde se está inserido.

    Longe de defender a tese da possibilidade de uma moral egoísta, Hume começa a edificar o princípio da utilidade com uma certa causalidade, na qual ainda que de forma obscura, coloca a relação entre nossas ações, o modo como afetam os outros, como são vistas pelos outros e a partir de quais critérios os outros definem como boas ou más. A ideia de relacionar um meio, que leve a determinado fim como base para um sistema moral, desde que esta utilidade seja tanto pessoal e coletiva, me parece bastante razoável como uma abstração passível de experimentação. E como tentativa de definir com clareza algum parâmetro que pudesse amparar os juízos morais.

    Meu grande problema em relação a tese humeana se encontra na causalidade existente entre uma ação e seu resultado. Será possível definir de forma tão circunscrita o que há de ser útil ou não? Para os casos de menor complexidade, não vejo problemas e para uma questão do tipo: a preparação para a erudição e produção do conhecimento na área de Filosofia exigem o investimento de muitos recursos financeiros e humanos e não temos como definir com certeza qual é a taxa de retorno social deste tipo de investimento; havendo muitas pessoas que consideram este tipo de "estudo", "arte" ou "especulação" uma futilidade desnecessária; diante deste panorama de infelicidade geral quanto ao investimento em produção de conhecimento filosófico, é razoável entendermos que não há uma utilidade benevolente e tais recursos deveriam ser direcionados para outras áreas prioritárias. O que fazer diante desta colocação, se adota-se o princípio de utilidade Humeano?

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  10. David Hume (1711-1776)


    O CONTEXTO DO DEBATE MORAL NOS SECS. XVIII E XIX
    1. A redescoberta dos pensadores clássicos;
    2. As grandes descobertas geográficas e a constatação da diversidade de costumes e culturas;
    3. As controvérsias teológicas surgidas com a Reforma Protestante e o Luteranismo;
    4. A descoberta do método experimental, do conhecimento científico e da Nova Ciência;
    5. O renascimento do Livre Pensamento e do Ceticismo, contestando as crenças e os valores vigentes.

    O DEBATE SOBRE O ESTATUTO DA MORALIDADE E AS ORIGENS DO PENSAMENTO MORAL
    1. Existem valores morais objetivos?
    2. Os valores morais são universais?
    3. Os seres humanos são egoístas por natureza, ou vícios decorrem da vida social?
    4. A moralidade baseia-se na razão, ou tem o seu fundamento no senso moral, nas necessidades humanas, ou na religião?

    O QUADRO DE INTERLOCUTORES NO SÉCULOS XVIII E XIX
    1. O Jusnaturalismo: Hugo Grotius (1583-1645); Samuel Pufendorf (1632-1694) A moralidade estava na natureza criada do ser humano e as distinções morais tem sua origem em Deus;
    2. O Racionalismo: John Locke (1632-1704); Samuel Clarke (1675-1729); As ações humanas são, em si mesmas, boas ou más e a Razão as descobre como tais e pode determinar as condutas humanas;
    3. O Egoismo: Thomas Hobbes (1588-1679); Bernard de Mandeville (1670-1733); O amor-próprio, ou sentimento de que somente a felicidade do agente é o bem, a moralidade das condutas não depende de fatores naturais; moralidade é algo determinado pelos agentes; não há fundamento substantivo para as distinções morais;
    4. O Sentimentalismo: Anthony Cooper (1671-1713); Francis Hutchenson (1694-1746); existe um senso moral que consiste em uma capacidade de perceber a moralidade das ações.



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  11. Uma Investigação sobre os Princípios da Moral
    Na Inquiry Concerning the Principles of Morals


    Relevância da obra: Introduz o uso do método empírico na discussão dos problemas da Filosofia Moral. O método empírico consiste no exame dos fatos da linguagem.

    Pontos fundamentais:
    1. A filosofia Moral de Hume parte da ideia que há uma distinção acentuada entre os campos da Lógica e da Ética; a Lógica decorre do fato do ser humano ser um ser pensante; a Ética decorre do fato do ser humano ser um ser social que age;
    2. A Lógica trata da razão, que concerne aos fatos e cujo objetivo é a verdade; a Ética trata dos sentimentos morais e concerne aos valores e seu objetivo é a determinação da bondade ou maldade das ações humanas;
    3. A Lógica deriva da natureza da Razão; a Ética deriva da análise dos sentimentos morais; argumentos lógicos são sobre fatos (‘is’) e deles não se podem tirar conclusões sobre como devem ser os nossos comportamentos morais (‘ought’);
    4. O fundamento da moralidade é o senso de humanidade que todos os seres humanos possuem; a prova de sua existência é a simpatia que todos os seres humanos tem para com a felicidade e o sofrimento de outras pessoas. Isso pode ser provado pelo exame da linguagem de todas as pessoas;
    5. A Aplicação do método empírico no estudo da moral nos conduz à investigação das atividades que são aprovadas pela grande maioria das pessoas. A Benevolência e a Justiça são os tipos de atividades humanas aprovadas universalmente. Esses tipos de ações estão relacionados com a promoção, ou inibição, do bem estar humano. As razões da aprovação ou reprovação das nossas condutas que envolvem o bem estar dos afetados por elas, são decorrentes de sua utilidade em promover ou inibir o bem estar dos outros.
    6. Não há outras razões, ou explicações, para a aprovação ou reprovação das nossas ações. Ações aprovadas são aquelas que satisfazem as necessidades essenciais das pessoas afetadas.

    SECTION I

    Problema: Os princípios da moral são estáticos ou dinâmicos? Eles são permanentes, em todos os tempos e lugares, ou mudam conforme as condições de costumes e ambiente das pessoas? São derivados de alguma fonte suprema e permanente, ou mudam conforme os acontecimentos da experiência humana? O fundamento da moralidade é alguma teoria metafísica do universo, ou pode ser encontrado nos fatos particulares da experiência?
    Hume propõe uma investigação (‘An Enquiry’) desses problemas. Ele se dirige a pessoas intelectualmente honestas, que estariam dispostas a reexaminar suas crenças. Ele não tem interesse em discutir com aqueles que defendem o dogmatismo em matéria moral. Dogmáticos são aqueles que defendem que as crenças morais podem ser verdadeiras ou falsas.
    Hume argumenta que somente sentenças sobre fatos podem ser verdadeiras ou falsas, posto que tem conteúdo experimental. Sentenças sobre as quais podemos ter certeza absoluta de sua verdade são aquelas que decorrem somente da razão. São as verdades da Matemática. As proposições morais são sobre sentimentos (feelings) e são matéria de gosto. Elas são matéria de preferência e não podem ser ditas verdadeiras ou falsas.
    Para entender a natureza dos princípios morais, é necessário examinar a origem e a base de algumas crenças morais típicas. A Benevolência e a Justiça são crenças morais aprovadas por muitas pessoas.

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  12. SECTION II

    As atitudes benevolentes para com os outros são consideradas, pelas pessoas, em geral, como merecedoras de elogios e aprovação. Dizer que uma pessoa viveu de forma a aumentar a felicidade dos outros, de uma forma geral, nos predispõe a aprovar essa forma de viver. Uma vida desse tipo é, geralmente, considerada como tendo mais mérito do que a vida de alguém que acumulou grande riqueza ou que possui muito poder, ou que viveu sua própria vida sem qualquer preocupação com o bem estar dos outros.
    Problema: Qual a natureza da Benevolência que a torna merecedora de aprovação moral? O exame das circunstâncias em que a Benevolência é envolvida indica que ela está sempre associada aos benefícios que dela resultam para o bem estar das pessoas. Não são razões de ordem metafísica ou teológica que justificam a aprovação da Benevolência. As pessoas aprovam a Benevolência e o fator que está sempre presente quando ocorrem atos Benevolentes e a aprovação das pessoas é que as pessoas identificam a existência de vantagens para o bem estar de todos quando atos benevolentes são praticados. É a utilidade para o bem estar dos envolvidos que torna os atos benevolentes aprovados moralmente.

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  13. SECTION III
    PART 1.
    A Justiça é a mais aclamada das virtudes sociais, da mesma forma como a benevolência é a mais reconhecida dentre as virtudes individuais. Elas estão estreitamente relacionadas, posto que ambas estão proximamente relacionadas com promover o bem estar de outras pessoas ao invés de servir exclusivamente os interesses individuais do agente. Elas apenas diferem na extensão da generosidade. A Benevolência se refere ao bem estar de indivíduos e a Justiça está relacionada ao bem estar da sociedade como um todo.
    Hume defende que a natureza da Justiça não pode ser entendida fora da experiência dos seres humanos. Experiência que se expressa, principalmente, na linguagem. A utilidade da Justiça, como da Benevolência, é algo que ninguém contesta. Entretanto, Hume se propõe a investigar se a utilidade (‘usefulness’) em promover o bem estar é, em si mesma, suficiente para justificar a aprovação universal.
    Hume argumenta que muitas vezes, quando são alteradas certas condições na sociedade humana, a utilidade das ações de justiça desaparece. Nesses casos a justiça não se torna mais uma virtude moral. Situações onde isso ocorre: a) Sociedades em que todas as necessidades dos indivíduos se encontram satisfeitas; b) Em relação a bens que existem em abundância ou cujo uso não implica na necessidade de uso exclusivo; c) Em situações excepcionais de extrema necessidade, como incêndios, fome generalizada, epidemias, enchentes, estados de necessidade, legítima defesa etc. A justiça somente é uma virtude quando os bens que são necessários para satisfazer as necessidades humanas não estão disponíveis em quantidade suficiente. A Justiça é a virtude que regula a distribuição de bens na sociedade, de forma a atender a maneira mais equitativa possível. Não existe uma fórmula que satisfaça as necessidades de cada situação possível. Há situações em que as regras de Justiça próprias para situações ordinárias precisam ser suspensas.

    PART 2.
    Hume argumenta que a Justiça tem um natureza transitória, posto que não podem ser estabelecidas regras precisas para a distribuição justa de propriedades. Atender as necessidades da sociedade pode, em diversas circunstâncias, implicar em procedimentos diversos. Permitir que os indivíduos acumulem o que eles puderem, desde que respeitadas os costumes da sociedade, pode ser uma boa regra de Justiça. Entretanto, ela pode resultar em situações em que algumas pessoas fiquem impossibilitadas de terem acesso àquilo que elas realmente precisam para viver. A extrema riqueza e a extrema pobreza não são de interesse da sociedade como um todo. É preciso adaptar as regras a situações particulares.
    A Justiça é uma virtude relativa, cuja natureza e princípios mudam constantemente, conforme mudam as circunstâncias. O único elemento que não muda, no que concerne ao conceito de Justiça, é o nosso sentimento de aprovação de certas condutas que consideramos justas. Entretanto, esse sentimento de aprovação e desaprovação não é suficiente para tornar a Justiça, ou as ações consideradas justas, nosso dever e nossa obrigação. Nesse sentido, a visão que Hume tem da moralidade introduz a necessidade de um elemento racionalista no seu conceito de virtude. As virtudes tem um elemento em sua natureza que expressa o sentimento de aprovação e reprovação, mas tem também um elemento racional que é conhecido com a reflexão racional sobre os fatos e a percepção das reais condições em que se dá a ação do agente. Interpretar virtudes somente em termos de sentimentos (‘feelings’), ou considera-las somente à luz dos fatos é sempre um erro.





    Ver texto do Inquiry:
    http://www.gutenberg.org/files/4320/4320-h/4320-h.htm

    Ver análise do texto do Inquiry: http://www.cliffsnotes.com/study_guide/literature/concerning-principles-of-morals/summary-analysis/section-ii.html

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  14. SECTION IV

    Nesta parte é demonstrado que as leis e costumes estabelecidos nas sociedades bem reguladas ilustram a forma como Hume interpreta a natureza da Justiça. Ele examina a forma de manutenção e uso da propriedade privada; as regras que governam as relações internacionais e os comportamentos que são adotados em matéria de sexo e relações conjugais. Hume procura demonstrar que em todas essas instâncias, as regras são dependentes das necessidades humanas, na medida em que eles se adaptam às diferentes condições ambientais. A Justiça, para Hume, não existe de forma independente dos costumes nos quais ela mesma se expressa. Assim o sentido do termo Justiça muda de tempo em tempo, conforme mudam as necessidades das pessoas e as condições em que vivem.

    No campo das relações internacionais há certas regras de conduta que são necessárias para a segurança e bem estar das nações envolvidas. Entretanto, essas leis são menos cogentes e, frequentemente, são desrespeitadas pelos Estados. Posto que, as Nações não são tão dependentes umas das outras, como são os indivíduos.

    A avaliação do caráter justo ou injusto do regime de propriedade particular de uma sociedade depende de uma série de fatores. Certamente os regimes de propriedade existem para atender as necessidades das pessoas. Em diferentes condições, um mesmo regime pode atender ou não as necessidades das pessoas. Em diferentes condições, existem diferentes necessidades.

    A avaliação da moralidade dos comportamentos sexuais das pessoas depende de sua necessidade para a realização do bem estar das pessoas envolvidas. Os padrões morais podem variar conforme os sexos das pessoas.
    Através da discussão dessa parte, Hume enfatiza o fato que as concepções humanas de Justiça mudam de tempo em tempo e o que uma pessoa, ou grupo, considera justo não coincide necessariamente com as opiniões mantidas por outros membros da mesma sociedade.

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  15. SECTION V
    PART 1.

    Nesta parte Hume parte da constatação que, de uma maneira geral, nós avaliamos de forma positiva as ações que resultam no bem estar de nossos semelhantes e desaprovamos as ações que não promovem o bem estar das sociedades. Em seguida, ele pretende examinar as razões pelas quais ocorre essa aprovação das ações úteis e a reprovação das ações inúteis, de tal forma que elas podem ser consideradas como os critérios de bondade ou maldade das nossas ações. Assim, após conceder que a origem das virtudes morais está associada com a utilidade, Hume examina as razões pelas quais os seres humanos sempre aprovam a utilidade e desaprovam aquilo que a contraria.
    Os moralistas do passado foram relutantes em entender as virtudes morais em termos de utilidade, pois confundiam utilidade com egoísmo. E ações egoístas são consideradas, na nossa fala cotidiana, como más e ações altruístas são consideradas boas.

    PART 2.

    Hume rejeita a ideia que utilidade é egoísmo, pois ações úteis não são necessariamente opostas ao altruísmo. Para Hume, a natureza humana é, ao mesmo tempo, egoísta e altruísta e as ações humanas podem ser egoístas ou altruístas. O fato é que manifestamos aprovação para com as ações altruístas praticadas e reprovamos as ações egoístas. Qualquer indivíduo normal aprova atos de perdão e generosidade praticados no passado distante. Atos dos quais o avaliador não recebe qualquer vantagem. Somos capazes de avaliar positivamente atos heroicos de bravura e coragem de nossos inimigos. O fato é que os seres humanos tem uma tendência natural a aprovar as ações praticadas e que tem como finalidade o bem estar dos outros, independentemente das consequências benéficas que tenham para os agentes. Além disso, lamentamos quando algum evento trágico ocorre com algum dos nossos semelhantes.
    A simpatia para com as outras pessoas é uma característica importante da natureza humana e é por essa razão que a aprovação ou reprovação de uma pessoa são determinadas não somente por razões egoístas, mas também pelo interesse pelo bem estar dos outros que são afetados pela ação. Os sentimentos morais tem sua fonte na utilidade, mas é um erro identificar a utilidade, somente, com o egoísmo.

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  16. SECTION VI

    PART 1.

    No início desta parte da ‘Investigação’, Hume procura demonstrar que certas características encontradas em algumas pessoas, tais como indolência, negligência, falta de cuidado, teimosia, precipitação, podem dar a impressão que resultam em imediata satisfação daqueles que as possuem. Entretanto, o fato que essas qualidades tornam as pessoas que as possuem menos capazes de realizar outras atividades de seu proveito, dá ao observador o sentimento de reprovação e desconforto. É de sentimentos desse tipo que surge o nosso senso de obrigação, ou dever, de evitar o desenvolvimento desse tipo de características em nós.
    Nesta seção, Hume argumenta que a utilidade, a nós e aos outros, é a fonte do sentimento moral e isso precisa ser demonstrado. Pois, todo sistema de filosofia moral precisa dar conta da origem de todos os sentimentos morais e dos tipos de comportamentos considerados adequados. Nesse sentido, ele examina a utilidade de algumas qualidades, tais como a discrição, sucesso material, frugalidade, honestidade, veracidade, castidade, e a posse de dotes físicos.
    Essas características são aprovadas ou reprovadas conforme estejam presentes na justa medida. Esta interpretação baseia-se na doutrina da Regra de Ouro, sugerida por Aristóteles. É a justa medida o que separa a virtude do vício. É a razão que determina a justa medida, posto que a razão leva em conta a personalidade do agente como um todo. Nesse sentido, essas qualidades são virtudes na medida de sua utilidade para o indivíduo que as possui.
    A discrição, que é a habilidade de tomar decisões inteligentes em assuntos importantes. Ela permite avaliar o mérito das outras pessoas, estimar os riscos de interagir com outros e encontrar o melhor curso de ação. Ela, existindo na justa medida, não provoca prejuízo ao agente e permite reprovar condutas que revelam o seu excesso.
    Isso também pode ser argumentado das outras qualidades acima citadas. Elas devem existir na justa medida para resultarem no bem dos que as praticam e resultarem em benefício da sociedade. Quando isso não ocorre, deixam de ser virtudes e transformam-se em vícios.

    PART 2.

    As características físicas, tais como a boa postura, ausência de gordura excessiva, graciosidade e características similares são úteis e admiráveis. Salvo quando são levadas a extremos e se tornam fins em se mesmas, ao invés de serem meios para o desenvolvimento de uma personalidade completa. A admiração que normalmente temos para com os ricos e os indivíduos prósperos é devida ao fato que creditamos a eles a posse de qualidades que nós aprovamos. E isso tem a ver com o uso de bens materiais para a execução de fins que consideramos apropriados. Nossos juízos morais podem mudar, na medida em que mudam essas circunstâncias.

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  17. SECTION VII

    Nesta seção, Hume examina as qualidades de algumas ações, as quais nos são imediatamente agradáveis. Estamos nos referindo à agradabilidade, a grandeza de pensamento, a dignidade de caráter, a tranquilidade e a benevolência. Essas qualidades são tratadas a parte, posto que elas estão relacionadas com ações que são consideradas boas independentemente de sua utilidade em satisfazer as necessidades das pessoas em algum tempo futuro. Existem ações que consideramos boas por causa do prazer, ou agradabilidade, imediatos que resultam de suas experiências. Diferentemente das qualidades examinadas até este ponto da ‘Investigação’, neste ponto Hume apresenta provas que existem ações imediatamente agradáveis e que, por essa razão, são moralmente corretas.



    SECTION VIII


    Nesta Seção são examinadas as qualidades imediatamente agradáveis aos outros e que caracterizam algumas de nossas ações. Hume afirma que a polidez, as boas maneiras, bom humor, ingenuidade, eloquência, modéstia e pureza de espírito, são, certamente, qualidades úteis para o pleno desenvolvimento da personalidade de alguém e capaz de trazer prazer e satisfação imediata àqueles que as possuem. Entretanto, elas são avaliadas pelo prazer e felicidade que trazem para os seres humanos.

    Os temas tratados nas seções VII e VIII permitem a Hume esclarecer ao leitor como entender o seu hedonismo. Todos esses exemplos de virtudes são apresentados para mostrar que enquanto o prazer é uma coisa boa, entretanto, o prazer não é a única coisa que é boa. Isso parece sugerir que Hume não identifica o bem com o prazer. Hume argumenta que uma pessoa pode desejar o mal, ou ter desejos maléficos, imorais. E o que é moralmente incorreto pode ser agradável e prazeroso. Ele argumenta que o que é bom deve ser agradável, mas nem tudo o que é agradável é, necessariamente, um bem.

    Ao realizar o exame das qualidades imediatamente agradáveis a nós, ou aos outros, Hume reconhece o papel que o conhecimento de fatos não pode, por si mesmo, produzir qualquer ação concreta. Por toda a ‘Investigação’, Hume argumenta que a fonte da moralidade pode ser encontrada naquilo que é útil pra a satisfação das necessidades das pessoas. Em grande parte, é papel da razão encontrar aquilo que é capaz de satisfazer essas necessidades. Mas, alcançado esse conhecimento, o indivíduo agirá conforme ele somente se assim o desejar. O ser humano é uma criatura que age conforme os seus desejos, e esse podem estar em harmonia, ou podem contrariar, a informação que é fornecida pela nossa razão.

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  18. SECTION IX


    Hume inicia esta parte elaborando uma análise crítica da concepção popular de moralidade que era corrente em sua época. A concepção popular considera a moralidade relacionada com a religião. Tanto na religião, como na moralidade, era usual se entender que a revelação divina era a fonte da verdade. Assim, através da revelação era possível conhecer, de forma infalível e direta, o desejo de Deus. E certos indivíduos eram tidos como conhecedores daquilo que Deus desejava, no que concerne ao comportamento dos seres humanos. Isso os tornaria aptos a prescrever de forma definitiva e precisa as regras que deveriam ser seguidas por todos.
    Essa forma de entender a moralidade tinha consequências desagradáveis. Ela justificava a atitude arrogante daqueles que alegavam conhecer a vontade de Deus; ela gerava intolerância e perseguição para com aqueles que discordavam das regras estabelecidas; ela levava a crer que existem atitudes que são definitivamente boas ou más, independentemente das circunstâncias, ou de seus efeitos para o bem estar das pessoas. Ainda, segundo Hume, eram responsáveis pelas inúteis ‘virtudes monacais’, tais como celibato, jejum, penitência, mortificação, negação de si próprio, submissão, silêncio, solidão. Essa concepção de moralidade é prejudicial ao bem estar humano.
    Hume argumenta em favor de uma concepção da moralidade concebida em termos de fatos da experiência humana. Isso permite entender a moralidade como conciliável com o evidente caráter de mutabilidade das circunstâncias em que existem os seres humanos e permite maior liberdade para os que se encontram em situação de ação.
    É certo, entretanto, que essa concepção de Hume, com a qual se pretende interpretar a moralidade como baseada na experiência humana, implica em noções que excedem a própria experiência humana. O próprio Hume afirma que a experiência não determina se uma ação é boa ou má. A experiência pode nos dizer quais as consequências que se seguem de uma ação e pode nos mostrar que gostamos de algumas delas e desgostamos de outras. Entretanto, a avaliação moral, que se explicita na declaração da bondade, ou maldade, da ação não decorre da experiência. A experiência nos revela matérias de fato, através do trabalho da razão. Da experiência não se pode tirar conclusões sobre o que deve ser praticado pelos agentes. A distinção entre o bem e o mal, em base empírica, nos leva a concluir que a distinção entre o bem e o mal consiste na diferença entre o desejado e o indesejado. Os juízos morais, que declaram a bondade, ou maldade, das condutas, são expressos nos nossos sentimentos de aprovação ou reprovação. Esse é o ponto limite da experiência moral. No uso de uma linguagem empírica, não se pode ir mais longe.
    Hume tenta resolver essa dificuldade argumentando que as ações somente podem ser avaliadas como boas quando são aprovadas pela maioria dos membros de uma sociedade. Entretanto, sob certos aspectos o problema permanece, pois não dispomos de razões para que possamos considerar a opinião da maioria como expressão daquilo que é correto. Muitas vezes a opinião da maioria tem se revelado incorreta e suas avaliações morais tem sido alteradas.
    Embora Hume rejeite a ideia que existem critérios permanentes de bondade e maldade, contudo, ele precisa introduzir um critério para sustentar a distinção entre o bem e o mal. Ele faz isso ao admitir que a natureza humana é feita de tal forma que todos os seres humanos tem o sentimento de humanidade, o que sempre aprova o que é útil e reprova o que inútil. Esse sentimento de humanidade é o mesmo em cada pessoa, embora possa variar a força que esse sentimento tem em cada ser humano. Esse sentimento de humanidade é que determina, em última instância, a moralidade ou imoralidade de um ato.

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  19. Section IX (cont.)

    Para Hume o nosso intelecto não tem poderes de levar os indivíduos à ação. Somente os nossos sentimentos determinam o nosso desejo e tem poderes de nos fazer praticar aquelas ações que nos levam ao que desejamos. Portanto, aos nossos desejos correspondem impulsos para a ação. Mas, somente a nossa inteligência pode estabelecer as relações entre os nossos desejos e os objetos desejados, na medida em que somente a razão conhece a realidade dos fatos desejados. Compete à razão aplicar os padrões morais de bondade e maldade às nossas ações.

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  20. APPENDIX I

    Todos os Apêndices escritos por Hume para a ‘Investigação’ parecem elaborados pelo autor com a nítida intenção de esclarecer certos conceitos e responder a críticas . O primeiro Apêndice é dedicado a esclarecer o lugar e a função da razão nos assuntos de moral. É certo que Hume enfatizou de forma acentuada o papel dos sentimentos no desenvolvimento das nossas crenças morais.
    Hume argumenta que a razão é competente nos assuntos que estão relacionados com o nosso conhecimento dos fatos e é capaz de identificar as relações existentes entre as coisas. Assim, a razão é um instrumento adequado para identificar a relação de utilidade entre as nossas condutas e os fins particulares que o agente tenha em mente. Caso o agente deseje preservar sua saúde, adquirir riqueza, ou dirigir-se a certos lugares, o uso da razão pode mostrar como esses fins podem ser atingidos. A razão pode conhecer as consequências que se seguem dos diferentes cursos de ação. Entretanto, a razão não pode afirmar se essas consequências são boas, ou más.
    Os julgamentos sobre bondade e maldade das ações são decorrentes de sentimentos. A razão somente pode conhecer os meios, mas nada diz da moralidade dos fins.



    APPENDIX II

    O Segundo Apêndice é dedicado a esclarecer o significado do amor a si mesmo. Aparentemente, afirmar que as ações moralmente corretas são aquelas que satisfazem os desejos do agente, implica em defender uma visão dos agentes morais como seres egoístas e, portanto, imorais. Hume argumenta que, de fato, uma vez que os sentimentos são necessariamente privados e ninguém agiria voluntariamente no sentido de promover o bem estar de outras pessoas, salvo se essa ideia fosse prazerosa e agradável a essa mesma pessoa, conclui-se tudo o que alguém faz pelos outros é feito para seu próprio prazer.
    Entretanto, um exame mais cuidadoso dos fatos revela que é possível que o objetivo de algum agente seja o bem estar dos concernidos e que todo prazer que ele venha, ou não venha, a ter em decorrência da ação seja meramente acidental à própria ação. Um ato praticado para o bem dos outros somente pode ser chamado um ato egoísta se formos capazes de dar um sentido muito amplo à palavra egoísmo. E nesse sentido amplo todo ato humano será egoísta e não haverá possibilidade lógica de haver uma exceção a ele. Nesse sentido, o termo egoísmo se torna completamente sem sentido, posto que ao dizer que alguém pratica um ato por egoísmo estaríamos afirmando que alguém pratica um ato porque pratica.
    Para que os termos amor de si mesmo, ou egoísmo, tenham sentido eles precisam ser definidos como exclusivos de certas ações. Para que esses termos tenham sentido é necessário que seja possível distinguir as ações praticadas incluindo o bem estar de outros e as ações que são praticadas sem referência ao bem estar dos outros. E, somente estas últimas podem ser consideradas corretamente como atos de amor a si mesmo.

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  21. APPENDIX III

    O terceiro Apêndice explora o significado do termo Justiça, conforme o uso que dele foi feito na ‘Investigação’. De uma forma geral, o termo Justiça é empregado por Hume no sentido de meio para satisfazer as necessidades das pessoas enquanto membros de uma sociedade. Em certas circunstâncias, em sociedades hipotéticas anteriormente consideradas, não há necessidade de justiça. Hume examina algumas outras implicações e dificuldades que surgem quando se aplica o princípio de justiça.
    Quando examinamos questões que interrogam sobre a justiça do tratamento que damos aos criminosos e perguntamos se é justo privá-los de sua liberdade, de suas propriedades e até mesmo de suas vidas, percebemos que é necessário entender que a justiça está relacionada com o atendimento de necessidades de todos os indivíduos e de diferentes momentos no tempo.
    Hume repete esse argumento no exame de outras questões concernentes à justiça nas ações de massacre de populações inocentes durante as guerras entre Nações para se obter a vitória sobre o inimigo e a justiça das ações sociais voltadas para o atendimento das necessidades das pessoas que se recusam a fazer todo tipo de esforços para cuidar de si próprios.
    A resposta de Hume para todas essas questões destaca que a ideia de justiça não implica em levar em conta, exclusivamente, as necessidades particulares de um indivíduo, mas está relacionada com o futuro e com o bem estar das sociedades como um todo. Isso significa que, em certas ocasiões é necessário sacrificar as necessidades atuais de alguns indivíduos, com o objetivo de alcançar o bem estar das sociedades no futuro. Nesse sentido, mais uma vez, Hume acentua o caráter mutável do conceito de justiça. De todos os modos, Hume parece conceder que há algo de estável no conceito de Justiça, caso contrário não teria sentido falar em princípio de justiça. Até mesmo a ideia que as necessidades da sociedade como um todo, com especial referência às necessidades futuras, tem prioridade sobre as necessidades atuais, parece ser algo permanente, cujas razões não podem ser obtidas pelo método experimental.

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  22. APPENDIX IV

    No quarto Apêndice Hume examina algumas confusões que surgem do mau uso das palavras. A primeira confusão envolve as palavras virtudes e talentos. Hume associa essa confusão com outra que a sociedade moderna teria herdado dos Gregos. Trata-se da confusão entre bondade e inteligência. Os Gregos consideravam que a ignorância era um defeito moral. Nas modernas sociedades, isso levou a crer que a educação seria capaz de erradicar os males atuais.
    Hume argumenta que bondade não se confunde com inteligência. A bondade sempre envolve um ato de vontade. Não são os talentos, ou habilidades, possuídos por alguém que determinam suas qualidades morais, mas o uso que o agente faz dos talentos que possui.
    Para Hume, os conceitos de bem e mal provem da experiência humana. As experiências morais são anteriores à experiência da existência de comandos provindos da vontade de Deus. E, nesse sentido, para que possamos ter a percepção de que existem comandos de Deus, necessitamos experimentar a existência de comandos da natureza. Não se pode confundir o sentido da moral enquanto comando que provem da experiência humana, com o sentido dos comandos que acreditamos serem provenientes da vontade de Deus.

    FIM

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  23. Achei a leitura do texto muito interessante pois é possível traçar um paralelo da leitura com fatos do cotidiano e da história como um todo.
    Percebi que eu mesma tinha muitas noções do que é a moral que casam com as expostas por David Hume, mas não creio que provaria que todos os homens pensam de forma semelhante (seção 5, parte 1).
    A racionalização do pensamento e a paixão que envolve as sensações é muito distinta de uma pessoa para outra para que se generalize.
    É interessante ler esse livro e observar o cotidiano: na Seção 6, parte 1 Hume descreve algumas das qualidades que seriam úteis a nós mesmos e por conseguinte, à sociedade. Ele cita como uma delas a castidade feminina. É curioso observar como essa noção está hoje ultrapassada mas não totalmente esquecida pela sociedade, que ainda encara esse tema como um tabu e dita regras sobre o comportamento feminino e a "mancha" que uma atitude irracional causaria para a honra desta pobre mulher.
    Hume está por toda parte no nosso cotidiano. Depois de ler o livro passei a perceber que dentre as várias facetas da sociedade tem sempre uma pitada de Hume.

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  24. Seria excessivo tentar reproduzir neste breve comentário tudo o que, de minha interpretação de Hume, tive ocasião de expor e discutir em sala de aula junto ao professor e aos colegas. Julgo, todavia, que é oportuno insistir ainda em alguns dos pontos por mim defendidos nesse debate.
    O primeiro ponto é a constatação de que o modo humiano de pensar a moral é essencialmente naturalista, isto é: que Hume pretende descrever e articular conceitualmente o que se pode -- e apenas o que se pode -- observar da moral na e pela experiência (entendida esta em sentido amplo: o que inclui, portanto, além do que se pode obter pela observação direta dos fatos pelos sentidos, também os testemunhos da língua e da memória cultural, por exemplo).
    Uma consequência importante e quase imediata desse procedimento humiano, que deseja poder tratar a moral como apenas mais um fato do mundo a ser explicado (e explicado, dessa feita, em termos causais -- ou seja: em termos da conjunção constante de eventos) é que, para Hume, questões acerca de como as coisas deveriam ser parecem estar já desde o princípio -- e, talvez, mesmo por princípio -- excluídas de suas investigações acerca da moral e dos fatos humanos que a constituem. Essa postura de Hume talvez se possa mais precisamente traduzir (e este é já o segundo ponto em que gostaria de insistir) em termos de uma negação, por ele, da objetividade da moralidade -- isto é: uma negação de que nossos juízos morais sejam respostas racionais a uma suposta percepção intelectual de um bem ou um mal que se descobrissem intrínsecos aos próprios fatos e atos que porventura aprovemos ou reprovemos. Hume parece-me ser, portanto, um subjetivista moral, no sentido preciso de que o fundamento de nossos juízos morais, qualquer que seja ele, encontrar-se-ia necessariamente, segundo Hume, em nós mesmos, e jamais nos fatos ou atos julgados eles mesmos.

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  25. Essa conjunção de naturalismo e subjetivismo em questões morais parece obrigar a que o investigador descubra o fundamento da moral em algum fato irredutível da constituição anímica ou social do homem; e, com efeito, é exatamente em algo do gênero que Hume o descobre. Para Hume, nossos juízos morais não se fundam senão em certo sentimento moral, primitivo na ordem da explicação dos fatos morais, e que consiste numa disposição natural (que Hume chama de humanidade) para obtermos prazer na observação do prazer de nossos semelhantes e desprazer na observação da dor de nossos semelhantes. Trata-se, este, de um fato irredutível da constituição anímica e social do homem pois, parece-me argumentar Hume, não se pode seriamente pretender de alguém que explique por que deseja obter sempre que possível o prazer ou por que deseja sempre que possível evitar a dor.
    Este terceiro ponto, todavia, carece de ser moderado, pois pode sugerir que Hume incorreria num absoluto irracionalismo em questões morais. Ora é verdade que, para Hume, absolutamente não são questões morais legítimas se estes ou aqueles atos, tomados em si mesmos, são bons ou maus -- e nem se estes ou aqueles fins da ação são os moralmente mais valiosos: pois não compete à razão eleger os fins da ação moral, mas somente reconhecer, como um fato, que o sentimento moral dos homens reiterada e consistentemente aprova o útil e desaprova o inútil (entendidos estes, respectivamente, como aquilo que tende ao prazer e aquilo que tende ao desprazer e à dor). A razão, no entanto (e este é o quarto e último ponto em que julgo ser importante insistir), nem por isso deixaria de participar de todo do juízo moral, ao menos na medida em que ela, nos termos em que a concebe Hume, parece ser: primeiro, capaz de esclarecer o senso moral -- a partir dos resultados obtidos por investigações naturalistas assim como a do próprio Hume -- a respeito de que, exatamente, é o útil que ele não pode senão aprovar, e de quais atos e disposições anímicas ou comportamentais -- ou, nos termos do próprio Hume: virtudes -- são úteis e quais inúteis; segundo, capaz de elaborar, a partir dessas mesmas observações da experiência, leis civis que incutam nos homens vivendo em sociedade os hábitos sociais e as disposições relevantes, enfim: a propensão para os atos úteis. Nesse sentido, a função da razão na moral revelar-se-ia muito maior e mais importante do que se poderia supor a princípio, muito embora -- e é preciso insistir nisto -- não lhe caiba de modo algum, segundo Hume, a primazia de fundamento primeiro da moral.

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  26. Ao invés de fazer um resumo do que entendi da obra de Hume, acredito que eu serei mais útil fazendo algumas críticas e elogios ao pensamento do autor e alguns comentários gerais.
    Hume defende que a ética não trabalha com fatos e verdades de natureza lógica, que a ética não pode e não deve encontrar verdades abstratas de temporalidade e de contexto, e que a moral deve ser ajustada para propiciar a satisfação das vontades humanas e a preservação do bem-estar social – e também que o que se deve observar na conduta dos indivíduos é a utilidade que essas condutas têm para o sujeito e para a sociedade.
    Parece-me que a ética só pode alcançar bons resultados se for tratada dessa forma, como um meio para propiciar o bem-estar, e que procurar satisfazer algum preceito lógico, impessoal, atemporal e universal em detrimento do que se mostra empiricamente positivo em uma determinada circunstância tem apenas consequências negativas na sociedade – e apenas para agradar ao nada, já que abstrair é basicamente ignorar conteúdo, “fazer um recorte”, e uma norma muito abstrata ignora uma quantidade enorme de informações essenciais.
    Defendo que Hume não é de forma alguma um relativista. O que Hume nos mostra é uma concepção de ética que aceita uma certa relatividade de circunstância para poder ser universal. A ética de Hume aceita que o útil será diferente em diferentes contextos e diferentes povos, mas fornece o sentimento moral como base segura – já que ,segundo ele, esse sentimento é constitutivo do ser humano e há de aprovar ou reprovar coisas semelhantes em diferentes indivíduos - para uma forma universal e atemporal de pensar a ética, embora os preceitos criados por essa ética não tenham essas qualidades.
    Para ser justo, a concepção rival, que associo aqui a Kant, também tem uma certa “elasticidade”, já que o racional é descoberto com o debate entre os indivíduos racionais, e uma circunstância onde uma norma aparentemente perfeita tem consequências claramente negativas pode ser indício de que aquela norma não foi criada com a mais perfeita racionalidade e que precisa ser aprimorada, e qualquer indivíduo que for atacado pela ética vigente julgar ter uma objeção racional ao atual conceito de certo deve questionar o pensamento vigente. Então existe alguma fluidez na ética deontológica.
    Porém a ética deontológica cria conclusões que pretendem ser universais. A universalidade está no método – a própria razão – e também nos resultados, e o objeto de observação não é de base empírica e não muda. Já a ética Humeana (não sei se posso chamar Hume de utilitarista) tem um método universal, mas as conclusões são relativas ao objeto de análise, que é de base empírica. Mas eu insisto, na minha visão há uma ambição por algo universal e atemporal no pensamento de Hume.
    Eu vejo grande sabedoria em criar um método universal com resultados relativos, e defendo que não se pode acusar Hume de ser um relativista. E eu defendo que apenas um sistema ético com direções empíricas e baseadas na conservação do bem estar público tem um objetivo realista e tem chance de chegar a algum lugar, e que as condutas de um indivíduo só podem ser julgadas pela sociedade com base na utilidade, e que por mais que uma ética deontológica possa também estabilizar as condutas, apenas uma ética utilitarista (ou com pressupostos semelhantes e objetos empíricos de análise) pode ajustar um individuo de forma que suas condutas sejam positivas para a sociedade.

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  27. Porém, eu vejo problemas em algumas premissas tomadas por Hume, e se voltarmos nossa atenção ao indivíduo, há consideráveis problemas nessa forma de pensar a ética – e em todas as formas que eu conheço. Chegarei a uma objeção discutindo a benevolência humana.
    Hume pressupõe a benevolência do ser humano, mas eu não creio que seja possível pressupor nem isto nem o oposto.
    Uns apelam ao egoísmo para defender que o ser humano é de essência malevolente. Mas Hume mesmo – além de outros como Adam Smith – os responde muito bem quando diz que a utilidade não necessariamente contradiz os interesses de outros indivíduos. Muitas das necessidades humanas são alcançadas de maneira coletiva, como a necessidade de ter relações sociais. Além disso, com o trabalho coletivo um sujeito alcança objetivos impossíveis para um solitário, e se somarmos a isso o afeto e a simpatia por outros indivíduos, podemos dizer que um indivíduo tem muitos motivos para cuidar de outros além de si mesmo, pois o infortúnio de outros frequentemente se torna o seu próprio, e cuidar de outros também é cuidar de si.
    Eu não vejo motivos para crer que um sujeito é mau por querer o próprio bem. O que deveria ele querer então? E se o sujeito realiza o seu bem através do bem de outros, digo que ele faz o bem duas vezes.
    Outros, porém, apelam a essa coletividade do bem para defender que o ser humano é benevolente. Hume, por exemplo, fala da simpatia que temos por nossos semelhantes. Mas, embora eu pense que não há base para refutar essa simpatia e transforma-la completamente em egoísmo, eu não creio que essa simpatia seja tão confiável. Simplesmente porque temos afeto e simpatia por outras pessoas, mas não por todas as pessoas. Temos também desafetos, e temos também posições completamente neutras em relação aos outros.
    O ser humano não irá querer sempre o bem dos outros, porque pode muito bem sentir ódio por algum sujeito, e em relação aos sujeitos pelos quais tem uma posição neutra, ele pode agir de maneira egoísta, no sentido pejorativo do termo. Para que o altruísmo ocorra é preciso um mínimo de afeto, e simplesmente não se pode contar com isso como algo certo e necessário. E não só um sujeito poderá não se sacrificar em nada pelo bem de outros, ele poderá também se sacrificar para o mal de outros, se houver suficiente ódio.
    E sobre o apelo de que o egoísmo é necessariamente também altruísta, isso seria sustentável se o ser humano quisesse sempre o próprio bem. Mas não creio que sejamos assim! Por um motivo ou por um impulso, podemos ás vezes procurar o próprio mal, conscientemente. Um dos potenciais motivos é comentado por Dostoiévski na obra “Notas do Subsolo”. Seguem alguns trechos:

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  28. “Podem rir, senhores, mas me respondam apenas: teriam sido determinadas corretamente as vantagens humanas? Não existiriam algumas que não se enquadram e não poderiam se enquadrar em nenhuma classificação? Pois os senhores, ao que eu saiba, compuseram toda sua lista de vantagens humanas fazendo uma média de valores estatísticos e de fórmulas da ciência econômica. (...) Mas vejam uma coisa espantosa: por que acontece que esses estatísticos, esses sábios que tanto amam a humanidade sempre omitem uma delas?”
    “(...) há apenas um caso em que o homem é capaz de, proposital e conscientemente, desejar para si algo até mesmo nocivo, idiota, e até idiotíssimo, e é precisamente quando quer defender seu direito de desejar para si algo idiotissímo e não ficar obrigado a desejar apenas o que é inteligente. Isso é a suprema idiotice, isso é um capricho pessoal, e na verdade, meus senhores, pode ser o que de mais vantajoso haja na Terra para nossos semelhantes, principalmente em certos casos. (...) porque pelo menos conserva o para nós o que há de mais importante e mais caro, ou seja, nossa personalidade e nossa individualidade.”
    Dostoiévski fala de uma “vantagem mais vantajosa”, afirma que se descobríssemos tudo que um ser humano deve fazer para alcançar toda espécie de bem, se descobríssemos um sistema de leis matemáticas que determinassem o comportamento humano a ponto de estabelecer um determinismo absoluto de conduta, muitos agiriam da maneira mais imbecil possível, pois isso garantiria que não somos engrenagens de uma máquina, e por mais que não ser engrenagem não represente em si absolutamente vantagem nenhuma, não ser engrenagem é o que temos de mais precioso. Interessante, não? E é aí que está minha objeção sobre a relação da ética com o indivíduo.
    Um sistema ético obriga o sujeito a fazer o vantajoso mas, além de difícil de determinar, o mais vantajoso pode estar “Além do Bem e do Mal” e assim, por melhor que tenha sido feita a reflexão sobre o que é e não é vantajoso para o indivíduo, submeter um indivíduo a regras pautadas nessa reflexão acabará se mostrando uma ofensa grave se essa submissão for efetivada através de um sistema coercivo e paternalista, e até hoje não ouvi falar de um sistema ético que não tenha mostrado esse resultado.
    Como a maioria dos pensadores que tratam da ética, Hume tentou pensar a moral de forma que os interesses individuais se tornassem realizáveis através de preceitos morais, que seriam também capazes de organizar o coletivo. Para Hume o ser humano buscaria sempre a utilidade, e ser útil é ser ético, assim não haveria sacrifício por parte do indivíduo para se adequar a um bom sistema ético utilitarista.
    Mas a vontade humana não pode ser resumida pela busca pelo útil, e me parece certo que é preciso sacrificar-se em grande medida para viver sob um código de conduta qualquer, mesmo se muito compreensivo.
    Porém, eu acredito que existe uma “vantagem mais vantajosa” também em ter relações sociais, vantagem que justifica esse sacrifício, desde que o sacrifício seja por um sistema ético que de fato traga um bem estar social, e me parece que a ética utilitarista é a que mais chegou perto de ser uma ética que vale a pena.






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  29. A Ética humeana apresentou-se como um sistema estritamente prático da moral. Ao se utilizar de um método experimental para análise do que pode ser considerado um ‘bem’ ou um ‘mal’ Hume se desprenderá de um dogmatismo presente em uma gama de autores que trataram do assunto. A ética humeana não defende um padrão ou algo definitivo, pois o que é útil – ponto principal na discussão feita pelo autor – num momento ou lugar pode não o ser em outro.

    Apesar da moralidade não consistir em um sistema estrito, atemporal e fechado, ela possui uma característica comum, que é a de utilidade. Útil para Hume é tudo aquilo que agrada e é evidente para o autor que nenhuma pessoa procuraria algo que a desagradasse. Inserido num contexto social, o bem de todos parece ser algo agradável a cada um dos indivíduos – e aqui se encontra o papel da justiça no sistema humeano; avaliar as situações de uma maneira que um bem comum seja satisfeito (Hume admite que a justiça, nesse contexto, pode não satisfazer a todos individualmente, já que as pessoas podem ter interesses distintos).
    A construção desse bem comum, além e estar conectado a justiça, é construído por um senso de humanidade identificado por Hume; a benevolência.

    A benevolência é o querer bem (Do Latim, BENE “boa vontade, bondade”, VOLERE “querer, desejar”). Mas vemos isto ser levado a outro nível na obra, pois além do desejo natural pelo bem do outro, percebemos um sentimento próximo do de empatia. É desagradável para o homem ver outro homem sofrer, assim como é agradável para o homem ver outro homem em uma boa condição. Essa ideia, aliada ao fato de que ser desagradável com alguém também pode nos desagradar, traz uma ideia de dever moral, onde as atitudes mais proveitosas para nós se tornam aquelas que de alguma maneira agradam aos outros e a nós mesmos – e são exatamente essas atitudes, que podemos chamar de virtudes, que são mais benquistas na sociedade, tanto pelo prazer que causam aos indivíduos envolvidos, quanto aos que observam e veem um bem.

    Ser bom é ser útil e os benefícios retirados das boas ações individuais são sentidos por todos os indivíduos da sociedade.
    Acredito que a maior vantagem do sistema humeano é a sua praticidade e maleabilidade. As sociedades mudam e as formas de se relacionar também, mas se nos orientássemos sempre pelo bem e prazer que retiramos das nossas atitudes e das atitudes alheias, competiríamos por uma sociedade menos desigual e mais justa. Como orientadora teríamos nossa razão, capaz sempre de nos mostrar os meios pelos quais nos desenvolvermos e organizarmos de maneira mais útil.

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  30. Hume introduz o empirismo às discussões morais, defendendo que somente com a análise racional de fatos não é possível entrar no campo da ética. Imagine que uma árvore caia, destruindo assim os árvore que estava ao seu lado. Se analisássemos apenas os fatos, a árvore poderia ser considerada criminosa. Além disto, Hume coloca que se nossas decisões morais fossem pautadas somente na racionalidade, nosso agir não teria tanta naturalidade, pois iríamos fazer reflexões acerca de fatos e possíveis consequências antes de qualquer movimento. Ele não defende tampouco que a moralidade se trata unicamente de sentimentos, excluindo a razão, mas que ambos trabalham juntos. Temos o sentimento de aprovação ou reprovação sobre uma ação, e tendo em mente aquilo que consideramos bom, usamos a razão para buscar meios de agir corretamente.
    Defensor do utilitarismo, Hume acredita que a humanidade tem a tendencia natural de buscar a maximização do bem estar geral. Esta ideia chamou a atenção e gerou críticas, as quais no geral afirmam que os indivíduos são egoístas e não baseiam suas ações no bem estar alheio, mas sim em seu próprio. Hume debate estas críticas afirmando que o sentimento egoísta varia de uma pessoa para a outra, mas o sentimento humanitário é generalizado, o que nos leva a agir com certa empatia em relação aos outros. Além disto, afirma que ao agirmos de acordo com os preceitos morais, atingiremos a felicidade com maior facilidade.
    Um dos problemas discutidos em sala de aula faz referência ao fato de que o sentimento de aprovação e rejeição dos indivíduos pode ser diferente e isto implica em certa confusão, pois, posso tomar uma atitude que considero causadora de bem estar e estar assim, incomodando as outras pessoas que não consideram a ação agradável. Hume afirma que é aí que entra o papel do Estado, que deverá mediar as ações dos indivíduos de modo a estabelecer um certo padrão que maximize o bem estar geral. Hume declara também que a ideia de justiça é flexível, uma vez que diferentes culturas pregam diferentes moralidades.
    Durante a leitura e discussão, estive inclinada a concordar com Hume no que diz respeito a inclusão do sentimento nas discussões morais. No entanto, ao observar a sociedade em que vivemos atualmente, não consigo enxergar tamanha benevolência. O desejo de causar o bem estar geral pode até existir, mas este não se manifesta na hora de tomar decisões morais devido as dificuldades que encontramos para tal ou simples irresponsabilidade que temos sobre nossos atos. Não enxergamos a relação entre eles e o bem/mal estar que pode gerar aos demais (jogar lixo no chão, por exemplo, é algo que muitos fazem para evitar o desprazer de guardar lixo no bolso, mas não pensam que futuramente aquele lixo pode contribuir com a formação de uma enchente, algo que sem dúvidas geraria mais mal estar do que o lixo no bolso). Penso que a benevolência se estende, na maioria das vezes, somente aos interesses daqueles que são próximos, por quem temos algum afeto, ou quando ela pode nos conceder direta e imediatamente alguma vantagem.

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  31. De início, é ressaltada a aderência cega argumentativa. Isto é, não importa quão sonoro seja um apelo argumentativo (onde devemos compreender que um argumento “sonoro” é um argumento logicamente válido e de validade material impecável), se o apelo argumentativo não está de acordo com sua aderência, então você o rejeitará. Sua aderência é resultado de suas emoções. Sua razão presta contas à sua aderência. Sua razão, presta contas às suas emoções. Se um conjunto de argumentos sonoros não é suficiente para convencer todo o ser, a origem de nossa moral é tal qual a percepção do Belo – derivada dos sentimentos.
    Hume deixa claro que não está falando de mecanismos metafísicos abstratos quando se refere a essa origem do senso moral. Ele está falando de sua observação sobre o comportamento humano, que parece ser naturalmente adaptado para o que essa conclusão sobre a origem do senso moral aponta.
    É também colocado que, apesar do “gosto” não ser disputável (ao contrário da “verdade”), ele é refinável pelo raciocínio, assim como ocorre com os rigores das finas artes. E a razão deve se manter a esse refinamento e a descobrir as condições de refinamento do sentimento.
    Olhando para essa ideia de Hume e pensando no mundo atual, me lembro de indivíduos que alegam por exemplo, ter medo de viajar de avião, e ao mesmo tempo, locomovem-se através de seus carros para a maioria de suas grandes, médias e pequenas viagens. O interessante de exemplos como esse, é que viajar de avião é, em média, muito menos perigoso do que viajar de automóvel. Então, estaríamos diante de um caso claro de superestimação do perigo de um evento devido a um fundo emocional? Se assim é, e se for dessa maneira que está colocada nossa tomada de decisão, então é possível especular que a tomada de decisão apresenta sua origem em suas emoções. Sua razão pode trabalhar de maneira a refinar sua emoção – e apenas isso. Você apenas perceberá estatísticas sobre o desempenho de aviões e, dessa maneira, passará a viajar mais de avião, uma vez que, seu emocional foi refinado para tal.
    Conforme seguem as ideias de Hume, o mesmo parece acreditar que as características que são exaltadas pela aprovação popular são aquelas que se encontram, de alguma maneira, na benevolência. Não é intenção do autor traçar um elogio exaustivo à benevolência, nem mesmo pregá-la. A intenção é apenas a de demonstrar que o comportamento benevolente é o aprovado pelo sentimento de todos. Tendo isso posto, é iniciado o discurso sobre o comportamento de um homem benevolente e como isso influencia aqueles em seu entorno.
    Um homem benevolente tem seu comportamento “melhor aproveitado” quando em sociedade: se isolado, o potencial de seu comportamento é limitado. Se em sociedade, todos podem aproveitar seus frutos. Se em sociedade, esse comportamento benevolente tem uma utilidade aparentemente infalível, uma vez que alguém será contagiado. E, nossa razão, deve trabalhar em torno do refinamento dessa percepção de utilidade (que resulta, finalmente, em prazer). Se princípios morais adotados pela sociedade não satisfazem a utilidade (o que implica em não satisfazer o sentimento de prazer), cabe à razão refinar uma noção mais apurada desses princípios, de modo que possamos identificar uma boa moral e uma moral ruim.
    É então que Hume começa a discutir como que a utilidade social é o plano donde surge a justiça. Como início a essa alegação, são apresentadas algumas abstrações, como, por exemplo, a de que num ambiente onde tudo lhe é garantido, tudo lhe pode ser saciado, não haveria espaço para a cautelosa e invejosa virtude da justiça. Em tal cenário, a justiça é inútil. Numa situação extremamente oposta, onde uma população é condenada à miséria, a justiça também é descartada. São apresentados exemplos “empíricos” também, onde até mesmo num cenário atual de necessidade, quando há algum bem provido de maneira abundante pela natureza, tal qual o ar ou a água, não há questionamento sobre a “justiça de propriedade” do mesmo. Sendo assim, a “utilidade pública” é o plano donde surge a justiça.

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  32. Somos parciais a nós mesmos e a nossos amigos, e somos capazes de aprender condutas vantajosas. Se muitos de nossos desfrutamentos prazerosos decorrem da interação não apenas com a natureza, mas com produtos artísticos, industriais, científicos e do campo, então a noção de propriedade privada se mostra útil. Se a noção de propriedade privada é útil, as noções de justiça são derivadas de sua utilidade ao público. Se as noções de justiça são derivadas de sua utilidade ao público, então a justiça tem seu mérito e sua obrigação moral.
    No decorrer de suas ideias, Hume também alega que a história e o senso comum condenam as ideias de um sistema igualitário: é impraticável; quando não, muito perigoso. Não é possível render todas as preferências de todos os homens a um mesmo nível. Fazer isso, é negar a natureza humana. No entanto, é claro que Hume também reconhece o outro extremo, o extremo donde pode surgir uma tirania.
    Portanto, Hume conclui que para estabelecermos leis da regulação de propriedade, nós devemos compreender a situação do homem e como funciona a natureza humana – e sempre apontar para o lado de maior benefício.
    Essa posição sobre a “compreensão da natureza humana”, fica mais clara no discurso sobre a sociedade política, onde a natureza da justiça é posta de acordo com as regras, costumes e evolução das necessidades estabelecidos em sociedade. Se estamos considerando uma evolução das necessidades, então não há nada imutável ou plenamente constante sobre a natureza da justiça. Se não há nada imutável ou plenamente constante sobre a natureza da justiça, a mesma só ganha significado quando está sob essa adaptação constante às condições dos indivíduos.
    É possível verificar no campo das relações internacionais esse comportamento mutante da justiça. No tempo de Hume, as nações eram muito mais auto-suficientes do que hoje. As nações, com sua recente interdependência, ganharam também recentes concepções de justiça sobre isso.
    Após explicar a origem das virtudes morais em termos de utilidade, é passada a discussão sobre o porquê da aprovação da utilidade e rejeição da inutilidade, por parte dos humanos. Hume rejeita a “Teoria Egoísta”, que sugere que a moral é um subproduto do auto-amor. Para rejeitar essa teoria, Hume alega que, por mais que existam autoridades que discursem sobre essa teoria (tal qual Polybius), a autoridade da natureza não pode ser contrariada – o que nos dá a entender que a “autoridade da natureza” é contrariada quando abraçamos, por exemplo, as ideias de Polybius e que, a “autoridade da natureza” é maior do que todas as outras autoridades. No entanto, não é deixado muito claro por Hume o porquê da autoridade da natureza ser contrariada nesse caso. O parágrafo onde isso é discutido é intrigante, e há uma análise feita exclusivamente sobre esse parágrafo, pelo acadêmico Phillip Cummins. A quem interessar, segue o link abaixo.
    http://www.humesociety.org/hs/issues/v26n1/cummins/cummins-v26n1.pdf
    O desinteresse de Hume pela “Teoria Egoísta”, é deixado mais claro quando é sugerido que o altruísmo não é de forma alguma contra o utilitarismo. O altruísmo pode ser bom (útil), ou ruim (inútil); bem como o egoísmo. No entanto, me pergunto se Hume refere-se a sentimentos, ações, ou ações observadas que podem desencadear sentimento quando discursa sobre egoísmo ou altruísmo.
    Agora, tendo posto que a utilidade é a fonte de todos os sentimentos morais, é chegado momento de verificar até onde essa teoria se sustenta, de maneira empírica – observando a conduta dos indivíduos.

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  33. Uma máxima buscada por Hume reside na aristotélica “Doutrina do meio-termo (golden mean)”, que indica que para um comportamento ser aprovado ou reprovado, ou para uma qualidade se transformar numa virtude, deve haver a quantia certa da qualidade ou da prática do comportamento. Se, por exemplo, a qualidade é apresentada de maneira excessiva, ou escassa, essa qualidade reflete um vício, não uma virtude – E a razão é quem entra para determinar o meio-termo. Hume pretende demonstrar como essa doutrina se reflete no que pode ser observado nos indivíduos. Quando um indivíduo apresenta estrita adesão a qualquer qualidade, ela será prejudicial, seja ela a honestidade, a veracidade, os dotes físicos e etc. Se as qualidades são prejudiciais, então as qualidades são inúteis. Se as qualidades são inúteis, então são rejeitadas. De outra maneira, quando as qualidades estão “na medida certa”, não são prejudiciais. Não sendo prejudiciais, são úteis. Se são úteis, são aprovadas. No entanto, o “bom” não é necessariamente “útil”; mas o “útil” é necessariamente “bom”. E o útil é agradável.
    Encerrando, Hume, em sua teoria sobre a moral, parece querer se distanciar ao máximo de qualquer apelo divino para resolver problemas morais, ou para falar da origem moral. Pelo contrário, se vale da natureza para discursar sobre sobre isso. Se valendo da natureza para discursar sobre isso, não é possível estabelecer um julgamento imutável sobre o que é útil e o que não é; sobre o que é aprovado e o que é reprovado.
    Podemos verificar o que agrada e o que desagrada observando os comportamentos dos indivíduos. Porém, essa observação de indivíduos também não deve ser considerado como a “definição final” do que é agradável ou desagradável. O exame da razão, de maneira a refinar a o julgamento moral de agradabilidade ou desagradabilidade, deve ser feito.

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  34. Hume inicia seu texto questionando se a natureza da moral é razão ou sentimento, e chega a conclusão de que a moral não pode ser apenas uma delas, enquanto a razão nos mostra o fato pelo que ele é, o sentimento designa a cada um o que o fato representa. A moral, portanto, tem uma base universal (razão) e uma base individual (sentimento). O autor então segue sua investigação entrando no âmbito da benevolência e da justiça; a primeira é uma qualidade que não pode ser invejada por entre os homens, a medida que todos desejam e também admiram. Enquanto um homem quiser o bem de seus semelhantes, este trará prosperidade ao seu meio social e assim se mostra útil. Já a justiça, é de todo útil, pois o presente estado social evidencia o desejo de uma maior equidade e o sonhado “bem maior” para todos. Eu gostei bastante dessa investigação, até onde eu li, e o que mais me chamou a atenção foram os conceitos de sentimento moral e a discussão da moralidade razão X emoção, dos quais apreendi que a razão é a forma pela qual observamos o mundo logicamente, e o sentimento nos faz interpretar o mundo cada um à sua maneira.

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  35. Em 'Investigações sobre os Princípios da Moral', percebi constantemente que Hume desenvolve a sua filosofia dentro de um universo completamente empirista. Durante toda a sua investigação, Hume aponta exemplos de comportamentos sociais em determinadas situações, e tenta através dessas evidências, uma indução para conceitos morais, dividindo-os em virtudes ou vícios, de acordo com o resultado dessa ação que, segundo Hume, só pode promover ou inibir o bem estar humano.
    Hume ao fazer a distinção entre a razão e o sentimento e ao aplicar isto à moral, é muito subjetivo quando nos diz que nosso sentimento de aprovação ou repulsa é natural. Ele diz que virtudes morais são aceitas pelo fato de serem agradáveis para maioria das pessoas, mas não chega a desenvolver sobre os fatores que levaram à tal afirmação, a interferências externas que mudaram a forma de como a sociedade ou um grupo de pessoas observa a ação e sentem que aquilo é bom ou ruim. Trazendo para a questão da benevolência, ele não conceitua o porquê das pessoas acharem que aquilo é vantajoso ou não, e nem como a sociedade passou a sentir isso.
    Na questão da Justiça como virtude moral, Hume diz que ela tem uma importância como reguladores do bem estar social. Ele diz que fora do ambiente social a justiça não pode ser entendida, e ainda que ela é uma virtude muito relativa, de acordo com a situação e onde ela é imposta. Por isso é necessário utilização da razão para interpretar as condições e até mesmo os sentimentos relacionados à situação. Hume não chega a explicar os fundamentos à partir dos quais essa razão é aplicada, como não desenvolveu a questão da base para nossa a provação e desaprovação da benevolência.
    O ponto crítico da minha minha leitura foi o contexto no qual Hume desenvolveu sua pesquisa, e a aceitação de preceitos já impostos socialmente, que são empregados no desenvolvimento do conceito de moralidade, utilidade e vício, segundo o autor. O bom, o ruim, o útil e o admirável, esse bem estar que é a causa da aceitação de atitudes consideradas virtudes e qualquer característica que seja comentada na investigação não são desenvolvidos. Não é comentado sua aceitação na sociedade ou a partir de quando as pessoas começaram a se comportar de acordo com tais costumes.
    Tais morais e sentimentos providos delas são assim pois influências externas os moldaram na sociedade, como a igreja , o cristianismo, enfim, não no modo metafísico, mas sim na questão da instituição, na forma de como foi a difusão de todos esses comportamentos morais. Achei muito interessante, mas limitada essa simplificação e essa tentativa de iniciar uma discussão sobre a moral tendo por base comportamentos já enraizados e gostaria de saber como os utilitaristas desenvolvem tais temas.

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  36. Em sua investigação, Hume disserta sobre distinções morais e sobre a relação entre sentimento e razão nas questões éticas e morais. Para Hume, tanto a razão (lógica) quanto os sentimentos (valores) são igualmente responsáveis pela construção dos conceitos morais e sobre o julgamento de tais questões, pois é pela experiência aliada aos sentimentos que formamos os conceitos de "bem" e "mal". É o que ele explica com o exemplo das belas-artes (Seção I) como, podemos ter uma primeira reação negativa em relação a alguma obra, mas após o emprego da razão para seu entendimento de forma correta, podemos ter um novo olhar sobre aquilo. Assim, a razão nos fornece a base em que nossos sentimentos se apoiam na hora de julgarmos o que é "bom" ou "mal"; "agradável" ou "desagradável".
    Mas como chegamos a um conceito de "bondade" e "maldade" universais e atemporais? Bom, para Hume todos os seres humanos tem o chamado princípio humanitário que naturalmente nos faz aprovar coisas que trazem bem-estar para nós e para a sociedade como um todo, por isso aclamamos certas características (benevolência, justiça, simpatia ...) e desprezamos outras que não nos são úteis. Quando um indivíduo possui essas qualidades, ele adquire um "mérito" pessoal, que é bem visto e considerado bom por todos.
    Ai entramos no ponto central de Hume, a utilidade. A utilidade como tendência para um certo fim e como fundamento para o sentimento moral. A utilidade que não é egoísta, pois não é busca apenas do bem-estar individual, mas também o bem-estar da sociedade. Hume externaliza as virtudes individuais para criar uma ética de virtudes de é fluida e atemporal, que se molda e se encaixa em tempos e lugares distintos, aspecto muito interessante de sua investigação.
    A leitura da investigação é bastante interessante na medida em que há alguns momentos em que é difícil separar sua própria opinião da opinião do autor e acaba se criando um debate interno. Também passei a observar algumas coisas na visão de Hume, o que acho que diz muito sobre a influência de alguns conceitos que, ainda hoje, consigo observar em situações cotidianas.

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  37. Em sua obra “Uma Investigação Sobre os Princípios da Moral”, David Hume busca trazer ao campo dos estudos sobre ética uma nova perspectiva que, contrariamente às tradições metafísicas vigentes em sua época, se baseia em observações empíricas para apontar o que para ele seria o verdadeiro sentido da moral.
    Para Hume os pensamentos dogmáticos, que estabelecem regras únicas e universais para as condutas humanas, e que normalmente são baseados em escrituras sagradas não atendem as reais necessidades das pessoas.

    É justamente neste ponto, o das necessidades humanas, em que Hume se foca para estabelecer que a fonte da moralidade pode ser encontrada através do critério da análise da utilidade das ações dos indivíduos e de seus reflexos na sociedade. Para Hume uma boa ação deve ser considerada boa não somente por seu autor mas também pelos outros envolvidos, os que sofrerão as consequências dos atos praticados, ou seja, se uma atitude é aprovada pela grande maioria, ela é considerada moralmente adequada.
    O atendimento às necessidades, sem causar desconforto ou prejuízos aos outros, e até mesmo trazendo possíveis benefícios a eles, é então considerado por Hume como algo útil, sendo o princípio da utilidade das ações o que irá determinar se as mesmas serão aprovadas ou não pelas pessoas.

    Mas como se dá esta aprovação ou não das atitudes?
    Hume responde que existe um senso moral, um sentimento humanitário que é o responsável pela aprovação ou desaprovação das ações, e para ele a razão não possui influência sobre este sentimento, esta servindo então como uma fonte de análise de informação e de argumentação, cabendo ao senso moral o papel de tomador de decisões. Em última análise, é o senso moral quem determina os valores, quem decide o que é bom e o que é mau, o que é justo e o que é injusto, o que é belo e o que é feio, etc.

    Portanto, a moralidade para Hume é algo flexível e ajustável às necessidades de cada sociedade, sendo que o que é útil para a maioria é igualmente considerado como sendo bom à esta mesma sociedade, cabendo aos indivíduos à aprovação e sua concomitante consideração de utilidade.

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  38. David Hume, empirista, em "Uma Investigação Sobre os Princípios da Moral" (parte integrante do Tratado da Natureza Humana) discorre sobre os fundamentos gerais da moral, qual o papel da razão e dos sentimentos na moralidade humana?

    Hume nessa questão focaliza a importância dos sentimentos. Ele usa o empirismo na natureza humana, algo novo para o contexto da época. O autor logo no começo dessa investigação já avisa que busca conversar com um publico que tem a cabeça aberta para ouvir o que ele tem a dizer; A ética que ele constrói coloca o sentimento como fundamental aos nossos juízos morais, não esquecendo no entanto da razão, que é vista como um instrumento dos sentimentos, dos desejos, das nossas afecções para tomar acoes.

    Hume parte da premissa que todos os seres humanos são benevolentes, e mais a frente coloca a utilidade como conceito importantíssimo nas nossas escolhas, razão pela qual é tido como o primeiro utilitarista. Nossas escolhas, feitas pelos nosso juízos morais tendem a preferir o que é útil em detrimento do não útil , sempre levando em consideração nossos desejos.

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  39. Desculpe o atraso.


    “A necessidade da justiça para subsistência da sociedade é o único fundamento dessa virtude, e como nenhuma qualidade moral é mais valorizada do que essa, podemos concluir que a característica da utilidade é, de modo geral, a que tem mais força e exerce um controle mais completo sobre nossos sentimentos”. Este trecho do livro “An Enquiry Concerning the Principles of Morals” revela a importância que David Hume dá ao conceito de utilidade no âmbito moral, esse conceito será a base para a investigação de Hume sobre a moral.
    A investigação do autor parte da controvérsia sobre a origem dos fundamentos gerais da moral, se eles partem da razão ou do sentimento. A investigação é feita através do método empírico pois o autor considera que “os homens estão hoje curados de sua paixão por hipóteses e sistemas em filosofia natural, e não darão ouvidos a argumentos que não sejam derivados da experiência”.
    A investigação passa pelos conceitos de benevolência e justiça, virtudes sociais louvadas por serem úteis, vejo que no caso da benevolência é possível que a primeira vista se tenha afeto pela atitude benevolente, já no caso da justiça é preciso o exercício da razão para obter a análise correta sobre se uma ação justa ou injusta. Na investigação sobre a justiça é que o autor chega a conclusão citada no início deste texto.
    Fica evidente que tanto a razão quanto o sentimento tem papel fundamental para construir a moral, e ele aponta que existem bons argumentos para defender que a moral tem sua origem na razão com também há bons argumentos para defender que a origem está no sentimento. Acredito que a razão é que faz a moral ter um caráter universal atingindo uma sociedade mas também tem uma moral de caráter particular, de cada indivíduo, que tem maior influência do sentimento.
    Vejo que o ponto inicial surge do sentimento, mas é preciso um raciocínio para obter um sentimento adequado e é com esta base que se poderá fundar a moral. O exemplo das belas artes, que mostra que existem belezas em que é preciso aplicar raciocínio para ter um sentimento adequado, deixa isto evidente. A figura de um quadro,por exemplo, “As Danaides”, chama atenção por sua beleza mas ao conhecer o mito por trás da figura temos uma outra visão sobre o quadro, temos acesso à “causa adequada” do quadro, à uma beleza refinada.

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  40. AQUI TEM INÍCIO OS COMENTÁRIOS DOS ALUNOS MATRICULADOS NO TERCEIRO QUADRIMESTRE DE 2013.

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